.fragmentação.
.(entre os escombros do penhasco, há um murmúrio).
.convoco réstias e fiapos do que me mantém atado para enviar – através dessa brisa marinha que tudo atravessa – mais uma mensagem à moça d´olhos, que está num longe que lhe abriga vela e ama.
.se interrompo de quando em quando essa missiva é que os pedaços estupefatos que me formam não se demoram a desmoronar, deixando um vácuo inócuo no lugar do fôlego falante que antes lhe animava. mas – arre – hei de conseguir terminar essa carta de encontros desencontrados e fragilidades flutuantes.
.estou cá minha linda moça d´olhos: desterrado do meu penhasco. órfão de tudo. migrante de si. re-tecendo o que serei com os despojos do que fui. meunosso mar salga os cortes ainda abertos dos enxertos e da degola dos excessos. memórias identidades e nascimentos digladiam como herdeiros (cheios de animosidade) de um legado ainda duvidoso. o corpo clama por hibernações. a mente obscurece e des-sonha. a voz habita silêncios. não sei mais de mim.
.procuro dentro de mim tua chama-guia e não encontro. a palma pretificada permanece aberta para o espaço. os ossos projetam o corpo para uma outra existência que sequer suspeito. durante os últimos séculos resisti bravamente a esse apelo. mas agora envelheceu meu alaúde – cujas canções adormeciam meus fantasmas perseguidores. como também secaram minhas gotas de chuva enfeitiçadora – que faziam sorrir até mesmo as tristezas mais noturnas. e mesmo minha valsa de esperanças – que desconsertava os agrouros e as sombras pálidas – perdeu o passo.
.estou de partida para o não-sei, minha adorável moça d´olhos. é minha derradeira tentativa de reaver meu corpo-continente. uma jornada inesperada e estranhamente impossível de prever. confesso cansaço e desilusão. confesso alheiamento e solidão. confesso pele de ausência.
.queria poder saber o que há além dessa fragmentação escura que me cerca mas os olhos de luneta estão turvos e relutantes.
.me imponho seguir à diante. talvez com a coragem dos que não suportam mais permanecer imóveis.
.se tu um dia receber esse relato preciso que saibas que o amor que esculpiu no meu penhasco um caminho de girassóis de olhos ainda é feito de vastidão.
.poeta do penhasco.